domingo, 12 de agosto de 2012

Longe

Recentemente eu caí igual a Alice num buraco fundo por demais. Enquanto descia, vi subindo meus antigos móveis, livros que folheava sempre, algumas roupas favoritas. Vi porta-retratos e televisões passando reprises. Flutuando, passou um computador com um jogo de paciência inacabado.

E fui caindo. A queda era tão longa que no meio do caminho encontrei uma cadeira que já havia sido minha e sentei... suavemente indo para o fundo, pensei "Como é que vim parar aqui?" e tentei lembrar. Nada me vinha à memória... 

Passei tanto tempo nessa descida, que um despertador piscou voluntariosamente berrando estridente e eu fui trabalhar... Ainda assim, enquanto digitava e atendia o telefone, as coisas permaneciam no seu curso para cima e eu para baixo. Eu voltei do trabalho, tomei banho, escovei os dentes e os cabelos. Apanhei o pratinho da Mia voando, também por ali vinha o saco de ração... troquei também a água e dei um cheiro na minha gatinha, que logo escapuliu pulando de móvel em móvel, repousando depois numa cômoda antiga que subia devagar, pesarosa.

Suavemente pousei no final daquele comprido túnel. Não havia meio de voltar. Andei um pouco, um pouquinho mais. Era tudo mata, vegetação. Não era frio, não era quente. Não era bonito, nem feio. Não havia medo, nem paz. Não havia nada ali. 

Ainda assim, soprava um vento estranho, que parecia querer perguntar alguma coisa, mas não o fazia, pois ali era a morada do Silêncio. Perto havia um riacho de água cristalina, mais adiante árvores frutíferas, uma mesa com pãezinhos infinitos e um serviço de chá cujo bule sempre estava com bebida quente.

O vento passava por entre as xícaras, ameaçava a toalha de mesa, mas ia embora sem perguntar. E foram dias e dias assim. Nenhuma revoada, sequer um burburinho. Nem uma pequena formiga nos bolinhos.

Havia livros em outras línguas e filmes em preto-e-branco passando a vida das pessoas que eu conhecia. Não havia som, nem legenda. 

E eu só pensava que não dava mais pra voltar e eu sequer havia me despedido. 

Onde é que eu fui parar? Por que eu fiquei tão longe? Longe.

Longe.






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